O peso da vida

EXCESSO de PESO… DEPRESSÃO… SUICÍDIO…

Esta é a Ana há 17 anos atrás, mas também sou eu e FINALMENTE reconheço-me como sendo eu mesma. O que pode parecer muito estranho, eu sei (como assim não te reconheces?).
Pensei muitas vezes em partilhar esta foto e nunca consegui, até hoje, 17 anos depois. Talvez por ainda ter dificuldade em aceitar esta Ana. Sim sou mesmo eu (a reacção das pessoas a quem mostrei é sempre a mesma: “não, não podes ser tu!”)
Quando olho para as fotografias desta altura sinto a dor daquela Ana que na verdade… sou eu. Não é só uma questão de excesso de peso, é o peso da vida, o peso do sofrimento. Estava em depressão e não sabia. Quis suicidar-me tantas vezes… Achava que era normal ser e sentir-me triste, achava que era normal sentir-me mal comigo mesma, achava que era normal odiar-me, odiar o meu corpo, sentir o peso da vida. Achava que era normal viver em sofrimento, viver em esforço. Na foto da esquerda peso “só” mais 10 kilos do que na foto da direita, mas parece muito mais! Era esse peso que vinha de dentro, não era só o peso exterior.
Lembro-me do dia mais difícil para mim em que estive quase quase a pôr termo à vida. Tinha 17 anos e estava no final do 12.º ano. Faltei à escola de manhã, algo que nunca aconteceu. Tenho apenas flashes desse dia. Já nem sei como cheguei à escola, mas sei que só poderia ter ido a pé. Morava a cerca de 2/3 km da escola e fui sozinha. Só me lembro de ter chegado e de ver as minhas amigas na sala de convívio. Tinha chegado na hora do intervalo. Notava-se pela minha cara que tinha estado a chorar. Desabafei e disse-lhes que queria morrer (já nem sei bem como disse, sei apenas que contei). Lembro-de ver uma amiga que se levantou e saiu porque começou a chorar, simplesmente não foi capaz de lidar com que eu acabara de dizer. Muitas perguntas e preocupação foi o que se seguiu. Respondi às minhas amigas mas sempre meia anestesiada. Sei que elas não estavam minimamente preparadas para ouvir ou para imaginar tal coisa. A realidade era-lhes demasiado distante. Não falei (falamos) com nenhuma professora ou com a psicóloga da escola sobre o assunto. Nunca ouvi falar sobre estes assuntos, nunca senti abertura. E sei que as minhas amigas sentiam o mesmo.
Sinto que não há informação suficiente, não se fala dos sinais de alerta, não se fala com os jovens e adolescentes sobre o assunto, não se fala com pais e professores. É como se ninguém soubesse! Quem está de fora não imagina a dor, não sabe detectar os sinais. Quem está de dentro não sabe que pode procurar ajuda e que o que está a sentir deve ser valorizado e pode ser curado.
Aquilo que sentia é que havia algo de errado comigo, não me sentia enquadrada, não fazia parte, mesmo tendo amigos de quem gostava muito, mesmo gostando da escola. Sentia-me diferente, fora de contexto. Isso e muitas outras coisas levaram à depressão e à vontade de acabar com o sofrimento. Eu só queria mesmo deixar de o sentir.
Acabei por ler muito sobre o assunto, por devorar todos os livros do Daniel Sampaio (o livro “Tudo o que temos cá dentro retrata as questões do suicídio) e no primeiro ano da universidade fiz um trabalho de grupo sobre o suicídio, em Psicologia Social. Ninguém soube como aquele trabalho me ajudou!
Acho que foi aí que comecei o caminho em direcção ao auto-conhecimento, ao desenvolvimento pessoal. Sempre senti que ler e estudar me ajudava, só que ao mesmo tempo não era capaz de pedir ajuda. Talvez porque sempre achei que tinha que ser forte, tinha que aguentar tudo e que a vida era mesmo assim, tinha que ser difícil e sofrida.
Não sei dizer quando me senti “curada”, ou seja, quando mesmo estando profundamente triste ou em depressão (como voltei a ter já algumas vezes depois disso) não voltei a pensar em suicídio. Sei que houve um grande trabalho interno e da minha parte sinto que esse grande risco esteve sempre presente enquanto adolescente e jovem. Acho que nos anos seguintes consegui, aos poucos, perceber a magia da vida e perceber que por mais difíceis que fossem os momentos, havia sempre algo melhor lá no fundo do túnel. Hoje, mais do que nunca, posso comprovar isso mesmo! Sinto-me tão feliz e tão agradecida, por tudo!
Não consigo escrever tudo num só post e quero mesmo continuar a falar sobre este assunto. Sinto que ainda há demasiadas pessoas em risco, que é um assunto tabu, que não há informação sobre os sinais, que a doença mental é completamente desvalorizada, que pedir ajuda é ser fraco.
Mas foram precisos todos estes anos para eu conseguir falar abertamente sobre ele. Sei que é um assunto que traz muita dor, para quem está a sofrer, para a família e amigos. Sobretudo porque não souberam como lidar, não souberam também eles próprios procurar ajuda.
Quero abrir esta porta, quero falar sobre isto, quero trazer luz ao assunto. Espero muito salvar vidas tal como salvei a minha!

Procura ajuda (para ti ou para os teus):
SOS Voz Amiga
Observatório infanto-juvenil (linhas de apoio)

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    Ana Milhazes, Socióloga, Formadora, Instrutora de Yoga, fundadora do Lixo Zero Portugal

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